:: Segunda-feira, Agosto 22, 2005 ::
Bem, enquanto isso aqui não cancela, vou postar mais um conto aqui...
Minhas Horas Não Contam o Tempo
Tempo sempre foi uma coisa cronometrada em minha vida. Um big bang próximo a acontecer. Ganhei meu primeiro relógio aos seis anos, não conseguia entender o significado que aquele pequeno objeto amarrado em meu braço poderia ter no futuro. Era azul, digital, com dois pontinhos piscando freneticamente. Tocava uma musiquinha chata toda vez que tinham dois zeros depois dos mesmos pontinhos, aqueles, frenéticos.
Na escola aprendi a ver as horas com a professora do relógio vermelho, com números grandes, que combinava com os seus sapatos, também vermelhos.Tinha mania de olhar as horas e ficar batendo o pé no chão.
- Hora de comer, crianças! - ela dizia passando o batom.
E todos iam pra cantina. Mas por que hora de comer se meu relógio azul não havia apitado, muito menos havia dois zeros depois dos pontinhos saltitantes?
Por que eu tinha que ir comer se não estava com fome?
Quando a hora do recreio acabava ela retornava a sala, com seu batom borrado, sentava e voltava a olhar as horas e bater o pé no chão.
Na minha casa minha mãe sempre corria.
- Estou atrasada! Estou atrasada!
Mas sempre sobrava tempo pra ela abrir a porta novamente e buscar o relógio de prata com pedrinhas verdes.
Quem inventou o relógio? Eu me perguntava. Porque todos precisavam de um relógio?
Outra vez também vi minha mãe brigando com meu irmão. Ela batia nele com uma revista que tinha umas moças sem roupa e comendo frutas.
- Ainda não está na hora menino! Moleque!
- Ai Mãe! Pára com isso!
Mas, como a mamãe sabia qual era a hora que o Tavinho podia ver a revista? Será que ela sabia quando o relógio dele ia apitar? Será que todas as revistas vinham com a hora pra se ler na capa? Então por que ela não briga comigo quando leio meus gibis? Sempre me questionava. Será que gibi não tem hora? Eu até tentei emprestar meu gibi pra ele não ficar triste.
- Ó eu tenho dois, fica com um...
- Seu bocó! Um dia você vai entender, sua hora vai chegar!
Não conseguia entender aquela relação de amor e ódio que as pessoas tinham pelo tempo, o porquê daquela pulseira no braço significar tanto.
Aos doze anos sofri um acidente. Dizem que fiquei com problemas mentais e todos têm pena de mim.
- Pobrezinho, como ele deve ser triste! - Sempre dizem.
Se eu pudesse, eu diria pra eles que não sou triste, porque hoje eu controlo meu tempo. Eu posso ficar sentado olhando pra vida, pela janela, sem me importar com as horas.
Antes eu tinha que correr atrás do tempo, hoje ele está ao meu lado.
E eu sorrio.
Pena que ninguém vê. Ninguém olha nos meus olhos!
:: calamidade múltipla 11:26 [+] ::
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:: Quinta-feira, Agosto 11, 2005 ::
ATENÇÃO!
Mudei para http://www.calamidadecaotica.weblogger.com.br
:: calamidade múltipla 02:22 [+] ::
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:: Quarta-feira, Maio 18, 2005 ::
Inferninho Pessoal
Sentada no sofá a espera do nada trazer a pequena chave para o país das maravilhas..
Degustando um pedaço de chocolate suíço com prazo de validade vencido..
Eu aguardo ansiosamente todos os dias..
Em frente àquela tv preto e branco piscando frame a frame uma mensagem subliminar inesgotável..
Bolinhas de sabão invadindo a minha janela.. uma a uma..
Céu de arroz ameaçando cair na minha cabeça..
Ponho os pés na parede e deixo aquela luz alaranjada cobrir o meu corpo..
Como uma fuga para o mundo paralelo dentro das minhas meias de listras desbotadas..
"Lady it's just for you.."
Nostalgia..
Mundo que não existe mais..
Guardado numa porta de silicone ligada ao céu, sim aquele de arroz..
Com cheirinho de alho queimado dentro da panela.
Com a tampa eu fecho, e deixo todos os meus pensamentos alí..
Refogados..
Esperando que algum dia alguém os entenda.
:: calamidade múltipla 15:06 [+] ::
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:: Sábado, Abril 30, 2005 ::
pisa pisa passa..
meus passos ecoando num corredor vazio..
e aquela impressão de que existe algo esquecido..
uma agonia, ânsia de vomito, e a certeza de estar só naquele lugar..
passo.. passo.. passo..
nhec.. nhec.. nhec..
um corpo seguindo.. automático.. preparando-se pra fazer uma curva a qualquer momento sem questionar.
talvez a mente tenha se perdido a alguns metros atrás..
ou simplesmente fugido pra nunca mais voltar..
cansada de si.. de mim..
e ao mesmo tempo o rame ressoando sublinarmente no ouvido.. a noite está aqui..
passo..passo..passo..
coração disparado.. desespero.. nunca chega..
respiração ofegante..
passo.. corre.. corre..
sim.. lah está.. a porta..
corre.. passo.. passo.. pisa.. pisa.. para e volta.
não.. hoje não.. talvez amanhã.
:: calamidade múltipla 14:40 [+] ::
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:: Quarta-feira, Março 02, 2005 ::
Judas de Plantão
Foi assim, numa noite qualquer. Vários deles, a abandonaram. Cidade tão bonita, tão cinza, tão barulhenta, tão silenciosa, calma, pacífica? Não, não. Acho que não. Hoje, lá está ela,só, abandonada, sem ninguém pra pedir um trocadinho se quer. Mas, e os retirantes nordestinos? Não a querem também, Tornou-se sem graça então. Não é mais do Brasil. Há quem diga que os mesmos mendigos foram vistos povoando o céu, ou seria inferno?
- Sei não sinhô...
O que posso dizer? Hum. Desgraçados, bandidos que expulsaram bandidos que expulsaram bandidos que hoje, impunimente estão aí.
Ai, cidadezinha triste, feliz, triste, feliz...
Enfim, São Paulo.
:: calamidade múltipla 17:17 [+] ::
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